Olá, mergulhadores!

Aqui é Tanque, Course Director SDI e responsável pela Private Diver de Arraial do Cabo!

Hoje venho tentar descrever em palavras as sensações sentidas ontem em uma saída muito especial de mergulho! Arraial já é conhecido pelos seus pontos sensacionais de mergulho, mas não é comum que mesmo os mergulhadores mais frequentes desse paraíso nunca tenham tido a oportunidade de explorar o "Lado B" do mergulho da região, no caso o lendário "Mar de Fora"! Que consiste nos pontos de mergulho mais inacessíveis da região, pois tratam-se de pontos desabrigados, ou seja, não protegidos por continente ou ilhas, que fazem com que esses pontos sejam muito mais vítimas das intempéries e águas mais frias!

Mas ontem essa chance foi aberta! Com a nossa embarcação contando com 12 mergulhadores experientes contando com a participação especial de Paulo Lopes que foi nosso guia durante toda a operação, cilindros duplos, sidemounts, roupa secas, semi-secas, lanternas, toucas, luvas e várias outras parafernalhas, partimos do Cais de Arraial na Praia dos Anjos em direção ao boqueirão! Ali passamos pelos baixios que exibiam águas calmas azul turquesa, vez ou outra tendo avistamentos de tartarugas pelo caminho! A Travessia no boqueirão é intimidadora com dois paredões de pedras por talvez milênios açoitadas pelo mar em fúria e que hoje contava somente com ondulações leves, para mim, um fã de Senhor dos Anéis, impossível não relembrar a cena da passagem pelo Portão dos Reis de Gondor! E passando pelo boqueirão, lá está ele, o Mar de Fora! Tomando rumo em direção a sudeste, fomos beirando a Ilha do Farol com sua costada imponente em nosso barquinho de 40 pés com a água já um pouco mais escura e uma leve brisa mais refrescante indicando que ali a água já não estava nos 28 graus que tivemos essa semana no mar de dentro, não demorou muito até que aparece em nossa frente a linda Gruta Azul!

A água estava calma mas parecia um pouco esverdeada, ali é uma área de caverna, em que um nível mais alto de treinamento é recomendado, sua forma triangular lembra uma catedral gótica. Nosso capitão Fabiano, o melhor da região dos lagos, viu nesse momento a oportunidade e nos agraciou com uma imensa demonstração de suas habilidades mirando a proa da embarcação para a entrada da gruta e avançando muito devagar colocou quase toda a proa da embarcação dentro da gruta! 

Acostumando-se com a redução de luz na gruta, é possível ver o que parecem dois portões, à esquerda e à direita, nos convidando para o desafio! Mas naquele momento, conversando com os mergulhadores na embarcação, nem todos demonstraram confiança ou até nível de treinamento para entrar lá e como era o primeiro mergulho do dia, tive que tomar a difícil decisão de abortar aquele mergulho e fazermos uma nova tentativa mais tarde! Então, nosso capitão com muita cautela se afastou da gruta e apontou a proa em direção à enseada do Oratório!

*Enseada do Oratório, foto tirada por Patrícia Escalea

No Oratório a água já não estava mais tão calma! As ondulações viraram pequenas ondas, nosso barquinho chacoalhava, os mergulhadores que faziam parte da equipe no entanto já tinham visto isso antes e continuavam a montar seus equipamentos com calma. A água parecia mais clara, já com claros tons de azul e até mesmo mais mornas! À leste da enseada do Oratório, há uma ilhora também muito alta onde ficam pontos de mergulho conhecidos como “Buraco do Mero” e “Arco do Mero”! Ali, Paulo e eu avaliamos o local e decidimos que seria o nosso primeiro mergulho do dia! Todos os mergulhadores se aprontaram! Uma pequena confusão no convés se formou com cilindros de side sendo carregados até o deck, alguns caindo com os dois ao mesmo tempo, alguns esperando que fossem passados, mergulhadores com cilindros duplos nas costas que não conseguiam levantar com o peso do equipamento, enfim, em alguns minutos o pessoal foi se ajeitando, caindo na água e em breve todos estavam já na água, fazendo um último ajuste nos equipamentos e preparando para descer! Com as duplas bem definidas e a ordem dos mergulhadores, foi dado o comando de descida! O ruído de reguladores sendo respirados na superfície e coletes sendo esvaziados tomou o ar por alguns segundos e logo todos estavam descendo ao lado de um paredão na ilhota!

O paredão contava com alguns corais incrustados, a água estava na casa de 22 graus, o que não é ruim para o ponto, e abaixo das ondas que o vento formava, a água era calma e a visibilidade era boa. Descemos até por volta dos 18 metros onde começamos a nossa jornada em direção ao Buraco do Mero! Olhei para baixo quando estabilizei minha flutuabilidade aos 18 metros e vi que o fundo não era possível de ser visto, com uma visibilidade no momento na casa dos 15 metros, me perguntei a qual profundidade seria o fundo? 40? 50 metros? Era tudo muito impressionante. Paulo Lopes guiava com clareza, sabia exatamente onde estava e onde ia, pela primeira vez em muito tempo pude relaxar em um mergulho quase como um turista, com as simples responsabilidades de fechar o grupo e cuidar da minha dupla Kelly, que para a minha sorte mergulhava com calma e bom controle de sua flutuabilidade.Enquanto seguíamos, Paulo nos guiou até uma gruta no paredão. Ali, dois dos maiores peixes anjo-rainha (ou ciliaris) que eu já vi se abrigavam calmamente. Usamos nossas lanternas para investigar um pouco mais a caverna e logo seguimos a nossa rota em direção ao buraco!

O Buraco do Mero é uma passagem em meio a pedras derrubadas em talvez centenas de anos (?) já com corais e ouriços incrustados, que começa numa profundidade de cerca de 15 metros e desce, a passagem é estreita o suficiente para passar dois mergulhadores apertados com somente um cilindro ou um mergulhador com sidemount com certa facilidade, sempre com saídas abertas pelas laterais, é difícil considerar uma gruta, mas as pedras caídas formam passagens onde é muito divertido negociá-las, uma vista espetacular, continuamos negociando as passagens até por volta de 20 metros de profundidade, e ao nos afastarmos do labirinto, lá estava ele, o Arco do Mero!

Um imponente portal, composto de duas grandes pedras separadas por uma passagem larga de talvez 5 a 8 metros de comprimento coberto por uma pedra ovalada, como uma mesa gigante de pedra. A vista dos mergulhadores passando por dentro do arco era simplesmente fantástica! Parei ali por alguns segundos somente para admirar e agradecer a oportunidade de estar ali, presente, absorvendo toda essa informação e esse milagre da natureza!

Seguimos então a passar pelo arco, 22 metros foi a profundidade da passagem, ainda por mais uns 5 metros para baixo o arco tinha a sua base e se estendia por apenas 2 a 3 metros de comprimento, uma passagem muito simples.Amanda que mergulhava com cilindros duplos mostrou toda a sua habilidade na arte de encontrar diminutos nudibrânquios ao redor do portal, listras azuis e brancas, coroados com brânquias alaranjadas, chegou até a achar um grupo com 3 que pareciam discutir algo importante! O mergulho era todo muito maravilhoso! Águas vivas enormes passavam no fundo em um show de cores. Ninguém viu o tempo passar, o mergulho estava perfeito, em o que sentiu como um piscar de olhos nosso tempo planejado de 45 minutos chegara ao fim e era hora de voltar à superfície! Lá, Fabiano, nosso capitão, Vivi, nossa vendedora e comandante da nossa loja, mas que no dia se aventurava como assistente de superfície, e Patrícia, mergulhadora mas que nesse passeio tb ajudou como A.S., nos aguardavam atentos!

Uma vez de volta à embarcação, discutimos qual seria nosso próximo ponto de mergulho, como achávamos que a Gruta não estava com boa visibilidade, seguimos com a embarcação até a enseada da Ponta do Ferreiro, e depois de cerca de 15 minutos de navegação, o vento e as ondas já castigavam nossa embarcação, após uma breve troca de planos com o Paulo, resolvemos retornar e tentar a sorte na Gruta Azul! Que hoje tava meio verde! E para lá fomos, cerca de 25 minutos de navegação ao total! Chegando lá, o Sol iluminava a gruta, barcos de passeio transitavam rapidamente pela sua frente, discutimos entre os mergulhadores, discutimos um plano e decidimos, vamos entrar!

Nossos equipamentos já estavam prontos já fazia um tempo, todos se levantaram e se prepararam para cair na água, nosso capitão calculou um tempo de intervalo entre os barcos de passeio e quando surgiu a oportunidade, tchibum! Fomos todos para a água! E dessa vez estava gelada! Dezoito graus marcados no computador! Não demorou muito até termos a primeira desistência, as coisas não pareciam ir bem. Reunimos o grupo, recalculamos as duplas, confirmamos o procedimento e em pouco tempo o som de reguladores e coletes esvaziando ecoaram pela gruta!

Como no mergulho anterior, Paulo seguia à frente e eu fechava o grupo, a água começou turva, gelada e verde, parecia que não seria o dia, mas em instantes, como num passe de mágica, a água clareou! Ensacada na gruta estava uma água limpa, clara, mas não era quente, a temperatura baixara para 16 graus! As paredes da gruta são encrustados de mariscos, talvez os únicos animais que conseguem segurar a força das ressacas marinhas, seguimos em frente. No salão mais à dentro uma nova espécie de animal tomavam as pedras, anêmonas! Vermelhas vibrantes, lindas espelhadas pelas pedras, como flores carnívoras, uma ou outra devoravam águas vivas que acabavam se perdendo lá dentro! Um espetáculo!

*Nautilus, foto tirada na Gruta Azul, por @nat.pinheiroramos

Avançamos um pouco mais para dentro e eu paro a minha respiração por um segundo. O lendário sifão da Gruta Azul! Uma falha no topo da gruta recebia o sol do dia quente e ensolarado lá fora, dentro da gruta os raios caiam na água gerando um espetáculo de cor azul! Os mergulhadores se agitavam no sifão para tentar capturar a melhor das fotos e eu congelei, só observava. Como aquilo era lindo!

*A caminho do sifão, foto de @nat.pinheiroramos

Trabalhar com o mergulho algumas vezes te faz ser absorvido pela rotina e algumas vezes te faz esquecer porque isso é tão sensacional. Nesse dia eu me lembrei! Que dia fantástico de mergulho!

Não demorou muito começamos o procedimento de saída da gruta, tínhamos seguido conforme o planejado, e ao final, todos ficaram com um gosto de quero mais! Alguns mergulhadores na superfície reclamavam do frio, a maioria não se dava por satisfeita. Um novo planejamento foi feito, dois mergulhadores voltaram ao barco, um novo arranjo de duplas foi feito, e voltamos à gruta! Todos queriam mais! Fomos novamente, eu me ocupei por apreciar novamente as anêmonas. Quando irei vê-las novamente? - Pensei. Um breve passeio para rever o show de luzes do sifão e logo tomávamos nosso rumo de volta. A experiência tinha chegado ao fim!

Mais uma vez na nossa embarcação Al-Camar, todos estavam ainda extasiados com os mergulhos do dia e da aventura que todos experimentamos juntos! O barco tocou em direção ao mar de dentro que já estava com vento forte e ondas mais severas, espirrando água para dentro da embarcação, mas a água já era morna, imagino eu que nos seus 28 graus. Chegamos com segurança ao cais, felizes e cheios de histórias pra contar!

Arraial do Cabo é um lugar mágico, com o potencial de grandes mergulhos, aventuras e tudo o que um mergulhador do nível básico ao mais avançado pode querer e hoje com certeza esse lugar mostrou sua força!

Obrigado meu Deus pela oportunidade desse dia! Obrigado a Amanda, Luiz, Alexandre, Gianni, Carlos (os dois), Cadu, Sidnei, Natália, Kelly, Fabiano, Vivi, Patrícia e especialmente ao Paulo por tornar esse dia possível!

Até a próxima!